
A delegada da Polícia Federal Janaina Pereira Lima Palazzo, responsável por conduzir os interrogatórios no inquérito que apura operações do Banco Master, do BRB (Banco de Brasília) e do Banco Central, declarou desconhecimento sobre conceitos básicos do sistema financeiro durante os depoimentos. As oitivas ocorreram no Supremo Tribunal Federal (STF) em 30 de dezembro de 2025 e foram divulgadas ontem (29) para a imprensa.
Designada para conduzir os depoimentos, Janaina afirmou ser “leiga” em temas relacionados à transferência de carteiras de crédito. Em um dos momentos, questionou o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, sobre o que seriam “depósitos compulsórios”.
O depósito compulsório é um instrumento central da política monetária. Trata-se de valores que instituições financeiras são obrigadas a recolher ao Banco Central, com base em percentuais definidos, como forma de controle da liquidez e da quantidade de dinheiro em circulação na economia.
Durante a oitiva, a delegada também demonstrou desconhecimento sobre procedimentos técnicos de auditoria contábil. “Foram aplicados, sei lá, diversos passos”, afirmou. A fala foi complementada por Ailton Aquino, que respondeu: “técnicas de auditoria”.
Em outro trecho do depoimento, Janaina voltou a afirmar não ter domínio técnico sobre o tema. “Eu peço essa explicação porque eu não sou técnica. Eu não sei como é que funciona”, disse, ao questionar padrões de aprovação de carteiras de crédito e a ausência de rendimentos identificáveis nos contratos analisados. Em seguida, pediu esclarecimentos diretos: “Compulsório, por favor”.
A Polícia Federal investiga o Banco Master por suspeita de criação de créditos sem lastro. O caso está sob relatoria do ministro Dias Toffoli desde dezembro, diante de indícios de envolvimento de autoridade com prerrogativa de foro.
A liquidação extrajudicial do Banco Master e do Will Bank é tratada como o maior rombo bancário do país. Segundo as investigações, o esquema envolvia a venda de títulos de renda fixa de alto rendimento, como CDBs, utilizados para financiar fundos de investimento dos quais o próprio banco seria o único cotista. O MPF afirma que os ativos circulavam sem geração real de riqueza, inflando artificialmente resultados financeiros.
Em depoimento à PF, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou que não há clareza de que as operações configuraram fraude. “A gente não tem clareza até hoje que isso foi uma fraude. O que a gente percebeu foi uma mudança de padrão documental e de originação do crédito”, declarou.
Segundo Paulo Henrique, os documentos indicavam averbações regulares e débitos mensais. Ele afirmou que a operação envolvia cerca de R$ 12 bilhões, aproximadamente 400 mil CPFs e cerca de 1 milhão de contratos, e que o banco seguiu procedimentos usuais de mercado, com registro das operações e comunicação ao Banco Central.
A PF apura se houve omissão de gestores do BRB e falhas de governança na aquisição de carteiras que chegaram a representar cerca de 30% dos ativos do banco público. De acordo com a investigação, o Master teria adquirido créditos da empresa Tirreno sem pagamento e, posteriormente, revendido os ativos ao BRB por cerca de R$ 12 bilhões.
O Banco Master foi liquidado em novembro pelo Banco Central, após a identificação de problemas de liquidez e incapacidade de honrar títulos com vencimento em 2025.
Na acareação entre Daniel Vorcaro, dono do Master, e Paulo Henrique Costa, ambos apresentaram versões divergentes. Vorcaro afirmou ter informado que as carteiras seriam originadas por terceiros e disse não saber, à época, que os papéis eram da Tirreno. Paulo Henrique afirmou que o entendimento do BRB era de que os créditos eram originados pelo próprio Master.
Os vídeos da acareação foram divulgados pelo Poder360 e tornados públicos por decisão do ministro Dias Toffoli.
Em depoimento à PF, o diretor do Banco Central Ailton Aquino afirmou que a governança do BRB deveria ter sido capaz de identificar a existência ou não dos créditos. Segundo ele, técnicas adequadas permitiriam essa verificação e houve falhas nos mecanismos internos do banco público.
Aquino afirmou ainda que o Banco Central questionou o BRB diversas vezes, por meio de ofícios, sobre a geração dos créditos adquiridos do Banco Master.
Em nota, o Banco Central informou que tem obrigação legal de monitorar permanentemente a liquidez das instituições financeiras, mas ressaltou que a responsabilidade pela análise da qualidade dos créditos adquiridos é exclusiva de cada banco.
Paulo Henrique Costa afirmou que, ao identificar mudanças no padrão documental, o BRB ampliou auditorias, comunicou o Banco Central e exigiu garantias. Segundo ele, cerca de R$ 10,5 bilhões já teriam sido substituídos, restando aproximadamente R$ 2,5 bilhões, enquanto o banco mantém cerca de R$ 9 bilhões em garantias constituídas.
