
Agentes financeiros estão mais pessimistas em relação à trajetória da dívida pública do Brasil na comparação com o cenário de 2022. O marco fiscal proposto pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), substituiu o teto de gastos de 2016, que havia perdido credibilidade após sucessivas flexibilizações. A nova regra entrou em vigor em agosto de 2023.
A proposta do governo indicou mudança no regime fiscal, mas passou a enfrentar questionamentos após a exclusão de despesas da meta e a adoção recorrente de gastos fora das regras do arcabouço. Em 12 de janeiro, o Ministério da Fazenda divulgou estimativas para a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) nos próximos anos.
Segundo relatório do Tesouro Nacional, a relação dívida-PIB pode atingir 94,8% em 2034 e 95,4% em 2035, caso não haja novas medidas de arrecadação e se mantenha a prática de gastos fora do arcabouço. Para o fim do atual mandato presidencial, em 2026, a equipe econômica projeta dívida bruta de 88,2% do PIB.
As projeções do mercado são mais negativas. Em dezembro de 2022, antes da adoção do marco fiscal, a mediana indicava dívida bruta de 90,2% do PIB em 2029. Após mais de dois anos sob o novo regime, a estimativa subiu para 91,8% no mesmo período. Para 2034, economistas projetam dívida de 96,74% do PIB.
Em setembro de 2023, um mês após a entrada em vigor do arcabouço fiscal, agentes financeiros estimavam dívida de 81,8% do PIB ao final do terceiro mandato de Lula. A projeção mais recente indica 83,95% em 2026.
Os dados mostram deterioração das expectativas mesmo após a mudança do regime fiscal. Em valores nominais, a DBGG alcançou pela primeira vez R$ 10 trilhões. Em proporção do PIB, a dívida bruta passou de 71,7% ao fim do governo Jair Bolsonaro (PL) para 79,0% em novembro de 2025, alta de 7,3 pontos percentuais.
No mesmo período, o deficit nominal avançou de 4,5% para 7,3% do PIB. Em 12 meses até novembro, o deficit nominal anualizado chegou a R$ 1,027 trilhão. Considerando apenas o governo central, o rombo somou R$ 925 bilhões.
O Banco Central divulgará, em 30 de janeiro de 2026, os dados consolidados do setor público referentes a dezembro de 2025. A trajetória da dívida tem sido apontada como fator de pressão sobre os juros, limitando espaço para cortes mais expressivos da taxa básica.
Ao deixar o cargo, Haddad mantém como principal legado a aprovação do arcabouço fiscal, mas sob questionamentos quanto à capacidade das regras atuais de conter o crescimento estrutural das despesas em um ambiente político marcado por pressões eleitorais.
A arrecadação recorde obtida com aumento de impostos não é suficiente para compensar a expansão dos gastos. As projeções indicam resultado negativo das contas públicas em 2025 e 2026.
As despesas totais do governo passaram de 18% do PIB no início de 2023 para 19,5% ao fim daquele ano. Em 2024, recuaram para 18,7%, ainda acima do patamar registrado no governo anterior.
A projeção é que, entre 2028 e 2029, emendas impositivas e de bancada possam consumir integralmente os recursos não obrigatórios da União, incluindo investimentos.
O governo central registrou deficit primário de R$ 53,5 bilhões no acumulado de 12 meses até novembro. Em janeiro de 2023, quando Haddad assumiu o cargo, havia superavit de R$ 54,9 bilhões.
Haddad atribui parte do desequilíbrio fiscal à exclusão, no Orçamento de 2023, de despesas como Bolsa Família, precatórios, Fundeb e dívidas com estados.
