
Milhares de líderes e ativistas de esquerda se reuniram neste fim de semana na Espanha para a 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global. O objetivo do encontro foi, de acordo com a Reuters, discutir estratégias para conter a “ascensão do autoritarismo” e “reconquistar os eleitores que migraram para a direita”.
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O evento globalista reuniu mais de 6.000 participantes de mais de 40 países, em um contexto de avanços eleitorais de partidos de direita e nacionalistas em várias regiões do mundo.
Liderada pelo primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, a cúpula ocorreu em momento em que os organizadores avaliam se existe uma estagnação do crescimento da direita, citando a queda de popularidade do presidente americano Donald Trump, a derrota de Viktor Orbán na Hungria após 16 anos no poder e o resultado aquém do esperado da direita francesa nas eleições municipais recentes.
Para o presidente Lula (PT), que discursou no evento, a Mobilização Progressista Global tem a missão de recuperar a capacidade das forças progressistas de projetar um futuro melhor: “Um futuro com justiça social, igualdade e democracia. Esses três termos – mobilização, global e progressista – precisam andar juntos. Não como palavras de ordem, mas como realidade viva. Uma pessoa não envelhece pela quantidade de anos, mas pela falta de motivação. A política só tem sentido quando se tem uma causa”.
Mobilização Progressista Global: a nova ofensiva da esquerda contra a direita
Foto: Reprodução/YouTube
“O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda a semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo”, afirmou Lula.
“A situação dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas negras e de muitas minorias é melhor hoje do que foi no passado. Não é coincidência que a reação das forças reacionárias tenha vindo de forma tão violenta, com a misoginia, o racismo e os discursos de ódio”, observou o presidente.
“Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda praticam a austeridade”, alertou.
Para Lula, a incapacidade do campo progressista de romper com a lógica econômica neoliberal abriu espaço para que a direita ocupasse o discurso de contestação: “A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. Canalizou a frustração das pessoas inventando bodes expiatórios: as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+, os migrantes”.
De acordo com ele, o papel da esquerda “é apontar o dedo para os verdadeiros culpados”: “Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia. Mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam algoritmos. A desigualdade não é um fato. É uma escolha política”.
Segundo o presidente, o primeiro mandamento dos progressistas deve ser a coerência. “Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo. Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. Quer comer e morar com dignidade. Escolas e hospitais de qualidade. Um meio ambiente limpo e saudável. Um trabalho decente, com jornada equilibrada. Um salário que permita uma vida confortável”, elencou.
“O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser estar sempre do lado do povo”, completou.
No contexto global, Lula enfatizou que o fortalecimento do multilateralismo e a reorganização das instituições de governança global são cruciais para enfrentar conflitos armados, redirecionar recursos hoje destinados a armamentos para o combate à insegurança alimentar, proteger economias, fortalecer o comércio exterior e avançar na adaptação às mudanças climáticas.
“Essa luta precisa ser global. De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem. Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças. Gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome. O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências. É sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas”, afirmou o petista em discurso.
O presidente afirmou que ser progressista na arena internacional significa defender um multilateralismo reformado: “É defender que a paz prevaleça sobre a força. É combater a fome e proteger o meio ambiente. É restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes. É criar um sistema em que as regras valham para todos. Em que países desenvolvidos e em desenvolvimento estejam em pé de igualdade no Conselho de Segurança, no Banco Mundial, no FMI e na OMC”.
Lula apontou o fortalecimento das instituições multilaterais como caminho não apenas para promover a paz, mas também para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras, como a “desinformação” e a regulação das plataformas digitais.
“O Papa Leão 14 disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Nosso papel é desmascarar essas forças. Desmascarar aqueles que dizem estar ao lado do povo, mas governam para os mais ricos. Que se dizem patriotas, mas põem a soberania à venda e pedem sanções contra o próprio país. Que proclamam defender a família, mas fecham os olhos para a violência contra as mulheres e o abuso sexual de crianças. Que se declaram donos da verdade, mas espalham mentiras e desinformação. Que se consideram homens de Deus, mas não têm amor ao próximo. Que falam em liberdade, mas perseguem quem é diferente”, declarou.
Lula finalizou dizendo que a democracia “não é um destino, é uma construção cotidiana” que ela “precisa ir além do voto e trazer benefícios concretos para a vida das pessoas”.
“Não há democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo prato de comida. Não há democracia quando um neto perde o avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite em seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor da sua pele. Quando uma mulher morre por ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança”, completou.