
A Fictor alugou uma mansão no Lago Sul, em Brasília, usada para se aproximar do governo Lula (PT) e sediar ao menos um evento com ministros do petista. O imóvel também foi palco de uma reunião para montar um dossiê contra uma testemunha da CPMI do INSS. As informações são do Estadão.
A empresa de investimentos, atualmente investigada pela PF por crimes contra o sistema financeiro e com dívidas de R$ 4 bi, ganhou visibilidade ao patrocinar o Palmeiras e, em novembro de 2025, ao anunciar acordo para comprar o Banco Master, de Daniel Vorcaro, em consórcio com investidores dos Emirados Árabes.
Segundo o Estadão, antes disso a empresa buscava interlocução com políticos em Brasília. Em um dos episódios, o consultor Felipe Alcântara reuniu o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), líder da bancada do PT na CPMI do INSS, e o ex-policial civil Rogério Giglio, que havia gravado o advogado Eli Cohen.
Giglio acusou Cohen na CPMI de cobrar dinheiro da oposição para depor contra o governo Lula. Depois, voltou atrás em cartório. Ao jornal, ele afirmou que foi pago por representantes da Fictor para mentir e gravar Cohen, a fim de abastecer o PT na comissão. Pimenta alegou não saber que a casa era ligada à Fictor e afirmou ter desconfiado do depoimento.
A mansão de 497 m² foi alugada pelo ex-sócio da Fictor, Luis Phillippi Rubini, até dezembro de 2025. Hoje, ele é credor da empresa em R$ 35 milhões.
Felipe Alcântara afirmou ao Estadão que recebia R$ 2,5 mil mensais da empresa, com promessa de participação em contratos. Disse ainda ter usado a casa para aproximação política. “O Rubini me falou: Pô, olha, Você conhece bastante gente, pode trazer captação e você ganha aqui, acho que é 0,20% ou 0,30% sobre rendimento, pode ser uma boa para você. Ele me colocou lá”, declarou ao jornal.
Rubini afirmou, em nota, que deixou a Fictor em dezembro de 2024 e negou “veementemente qualquer envolvimento com os fatos mencionados” pelo Estadão.
No caso da CPMI do INSS, Alcântara reuniu Pimenta e Giglio em 24 de setembro de 2025. Giglio havia gravado Cohen sem autorização e produzido vídeo acusando-o de pedir R$ 5 milhões à oposição. Hoje, admite que mentiu.
“Foi totalmente direcionado. Eu assinei um depoimento com a versão que eles queriam. Ditaram, falaram para eu dizer que o Eli pediu dinheiro. Ele nunca pediu”, disse ao Estadão. Segundo ele, receberia até R$ 30 mil mensais por 2 anos.
Alcântara relatou ainda que prometeu dinheiro a Giglio: “Eu sabia que ele não tinha provas. E aí eu blefei, falei: ‘Olha, me entrega todos os fatos realmente que o Eli é um cara que tá em conluio com a direita, falsificando informação, que eu te garanto R$ 50 mil por mês. Se você fizer isso, tá garantido’. Essa foi a minha fala, entendeu?”.
Ao Estadão, Pimenta confirmou o encontro, mas disse não saber que o imóvel era da Fictor. “Em nenhum momento esse senhor Felipe (Alcântara) se apresentou como sendo da Fictor. Estou sabendo agora dessa informação”, declarou. Sobre o vídeo, afirmou: “Esse Rogério (Giglio) apresentou para mim um vídeo. Eu disse para ele que aquilo ali, sem um depoimento formal, não tinha qualquer valor. Um vídeo gravado com falas de uma pessoa não tem nenhum valor jurídico. Para nós, só teria interesse se houvesse uma formalização através de um depoimento na Polícia Federal”.
O advogado Renato Reginatto, citado por Giglio como responsável pela contratação, negou ter oferecido emprego e disse não poder comentar o caso da Fictor por envolver clientes. Afirmou também nunca ter conhecido Giglio.
A Fictor também tentou se aproximar de Itaipu. Segundo o Estadão, a empresa buscou gerir até R$ 1 bi de um fundo da hidrelétrica, mas a iniciativa não avançou por impedimentos legais. Alcântara alega que houve “agendamento técnico” e troca de e-mails.
O diretor-geral de Itaipu, Ênio Verri, esteve na mansão em evento com petistas, como Gleisi Hoffmann e Alexandre Padilha. Verri não se manifestou sobre:
A ministra da Secretaria de Relações Institucionais disse que participou de encontro, mas que “não ouviu, não discutiu nem encaminhou qualquer proposta de interesse do grupo”. Já o ministro da Saúde afirmou que “nunca participou de reuniões ou encontros em que este tema foi tratado”.
