
Investidores individuais e empresas com recursos aplicados no Grupo Fictor anunciaram a criação da Associação de Credores da Fictor Invest (ACFictor), com lançamento previsto para segunda-feira (9). A entidade pretende organizar a cobrança de cerca de R$ 4 bilhões e avaliar o pedido de recuperação judicial apresentado pelo grupo.
Segundo a associação, mais de 13 mil credores foram afetados. Desse total, 11.549 são pessoas físicas, com créditos estimados em R$ 2,54 bilhões. O grupo também reúne empresas com valores relevantes a receber. Os investidores não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em nota, a ACFictor afirma que a crise da empresa atingiu 13.041 credores e classifica o caso como um dos mais complexos do mercado recente. O texto aponta risco de novas perdas com o processo de recuperação judicial solicitado pelos controladores da companhia.
O pedido de recuperação judicial foi protocolado no domingo (1º). Em entrevista, o advogado da Fictor responsável pelo processo, Carlos Deneszczuk, do escritório DASA Advogados, afirmou que a medida decorreu de uma crise de liquidez iniciada após o anúncio de uma proposta de compra do Banco Master, em parceria com fundos dos Emirados Árabes Unidos não identificados.
No dia seguinte ao anúncio, em 18 de novembro, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação do Banco Master. Segundo a defesa, o episódio ampliou a crise de confiança e levou clientes da Fictor a solicitar o resgate de cerca de 70% dos recursos investidos.
A Fictor estruturava investimentos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs), que adquiriam ativos como participações societárias. Com a crise de liquidez, houve impacto no pagamento de dividendos, e parte dessas estruturas foi encerrada.
Presidente da nova associação, o advogado Otávio Barbuio afirmou que o encerramento das SCPs levou à conversão forçada dos investidores em credores. Segundo ele, isso concentrou os conflitos no âmbito da recuperação judicial e reduziu a capacidade de reação individual.
Barbuio também apontou dúvidas sobre a estrutura societária da empresa, o tamanho real do passivo e o uso da recuperação judicial. Para ele, o caso levanta questionamentos sobre eventual utilização do instrumento para blindagem patrimonial e diluição de responsabilidades.
A Fictor informou que pretende quitar integralmente as dívidas, sem descontos, com prazo de até cinco anos para os reembolsos. Segundo a defesa, até novembro não havia registro de inadimplência.
A expectativa é que o Tribunal de Justiça de São Paulo analise o pedido de recuperação judicial em até uma semana. O plano teria sido solicitado por um investidor internacional, identificado como Royal Capital, que participaria do consórcio interessado na compra do Banco Master.
Antes do pedido de recuperação, o TJ-SP determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões da Fictor. A decisão foi tomada pela desembargadora Maria Lúcia Pizzotti, da 30ª Câmara de Direito Privado, para preservar garantia prevista em contrato com a Orbitall, empresa responsável pelo processamento de pagamentos de cartões da American Express.
Em 2024, o grupo entrou no setor de pagamentos com a criação da Fictor Pay. No ano seguinte, lançou um cartão de crédito empresarial com a bandeira American Express. Segundo o pedido de recuperação judicial, o cartão chegou a movimentar R$ 200 milhões por mês. A operação atua em nove Estados, com cerca de 500 clientes, e já movimentou R$ 2,2 bilhões.
