
Um grupo de parlamentares atuou no Congresso para aprovar propostas que favoreciam o Banco Master, blindar políticos, pressionar a Polícia Federal (PF) e o Banco Central (BC) e, agora, tenta barrar a criação de uma CPI para investigar o caso. A informação é do jornal O Estadão.
Nos bastidores, as articulações são atribuídas à chamada “Bancada do Master”. Segundo o jornal, o grupo agiu enquanto o banco vendia carteiras de crédito ao BRB, Daniel Vorcaro ampliava relações políticas com eventos patrocinados e o banco controlado pelo governo do DF tentava comprar o Master.
Em março do ano passado, o BRB tentou comprar o Master, mas o Banco Central rejeitou a operação em setembro. Vorcaro foi preso em novembro, acabou solto depois, e o banco foi liquidado. O Estadão aponta que o período coincide com a movimentação de líderes no Congresso para aprovar propostas que favoreciam o banco e protegiam políticos.
Em 13 de agosto de 2024, o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), apresentou emenda à PEC da autonomia do Banco Central para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A proposta, segundo o jornal, “foi identificada por políticos e integrantes do mercado financeiro como uma das primeiras ‘digitais’ para favorecer o Master no Congresso”.
À época, os títulos cobertos pelo FGC eram o principal pilar do banco. Em depoimento à PF, Vorcaro disse que o modelo de negócio era “100% baseado no FGC”. O Master oferecia CDBs com rentabilidade acima da média, mas não teria capacidade de honrar os pagamentos.
De acordo com o Estadão, Ciro “é um dos políticos que se conectaram com Vorcaro, participando de eventos patrocinados pelo Master no exterior, apoiando as negociações com o BRB e defendendo interesses do banqueiro no Congresso”. A emenda não foi acolhida pelo relator da PEC, senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Operadores do mercado viram na iniciativa “uma tentativa do Master de alargar a atuação que já estava sob crítica”.
Dois dias antes de o BC barrar a compra do Master, o deputado Claudio Cajado (PP-BA) apresentou requerimento de urgência para acelerar um projeto que permite ao Congresso destituir dirigentes do Banco Central. Cajado é vice-presidente do PP e aliado de Ciro.
O requerimento teve apoio de seis líderes partidários e começou a tramitar em 2 de setembro. Apenas Pedro Campos (PSB-PE) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) assinaram o pedido de CPI do Master.
Após o requerimento, a deputada Lídice da Mata (PSB-BA) pediu a retirada do projeto. Ao Estadão, Pedro Campos afirmou que assinou urgências como líder e que o PSB foi um dos primeiros a denunciar irregularidades e a defender a CPI.
O União Brasil, presidido por Antonio Rueda, controla o RioPrevidência, que aplicou cerca de R$ 1 bilhão no Master. O fundo foi alvo de operação da PF por suspeita de irregularidades e risco elevado.
Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), resistem à instalação da CPI. Segundo o jornal, Motta “apontou obstáculos regimentais que dificultariam a criação da comissão”. Alcolumbre teria dito que decidirá após o recesso, mas aliados afirmam que ele não pretende criar a CPI.
Ainda segundo o Estadão, Rueda atuou para barrar a comissão e “é constantemente apontado por parlamentares como uma espécie de ‘lobista’ do Master e de Vorcaro no Congresso”.
A CPI também não interessa ao governo Lula. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), é contra a comissão.
A “Bancada do Master”, de acordo com o jornal, também “agiu nos bastidores para apoiar uma tentativa do ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, de questionar a liquidação do banco decretada pelo Banco Central”.
