
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) protocolou agora há pouco (23) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma nova Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra o presidente Lula (PT) e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). A ação acusa a chapa de abuso de poder político e econômico e de uso indevido dos meios de comunicação. Segundo a petição, a campanha petista montou uma estrutura digital paga, abastecida e comandada ao longo de três anos para a reta final da eleição.

A ação pede a cassação dos registros ou dos diplomas de Lula e Alckmin. Pede também oito anos de inelegibilidade para Lula. No caso de Alckmin, o pedido de inelegibilidade depende de prova de contribuição pessoal.
O relator é o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. O Facebook entra no processo como terceiro juridicamente interessado.
“A máquina deixa de ser apenas estatal e se torna algorítmica”, diz a abertura da petição.
PROTOCOLO – AIJE – Ato 10 – Abuso de poder Facebook – 0603359-89.2026.6.00.0000Baixar
Segundo o levantamento, as páginas oficiais de Lula e a página nacional do PT gastaram de R$ 4.169.800 a R$ 5.221.788 em impulsionamento antes do início oficial da campanha. A página oficial de Flávio gastou zero no mesmo período, de acordo com a ação.
As páginas oficiais da candidatura veicularam 1.103 anúncios pagos, com gasto de R$ 781.200 a R$ 1.040.597. A página nacional do PT veiculou outros 1.310, com gasto de R$ 3.388.600 a R$ 4.181.191. Segundo a petição, 95 desses anúncios recrutavam militância digital para a campanha, sem divulgação de programa de governo.
Os dados vêm da Biblioteca de Anúncios do Facebook, repositório público obrigatório por resolução do TSE.
6.606 anúncios contra Flávio
Durante a campanha, a ação identificou 6.606 anúncios de propaganda negativa contra Flávio. O gasto ficou entre R$ 1.537.800 e R$ 2.492.794. As peças somaram de 147,2 milhões a 170,9 milhões de impressões.
A lei eleitoral proíbe o impulsionamento de propaganda negativa. O próprio Facebook removeu 1.818 desses anúncios.
Segundo a petição, 2.008 anúncios negativos entraram no ar depois das decisões do TSE de 11 e 13 de outubro. Na data da coleta dos dados, 893 continuavam ativos.
A ação cita um pedido do próprio PT ao TSE. Em 30 de janeiro de 2026, o partido pediu a supressão da regra que permite o impulsionamento de críticas ao governo. Na ocasião, o PT afirmou que o pré-candidato à reeleição seria “o maior prejudicado”. “Quem pediu a proibição conhecia a regra”, diz a petição.
Páginas sem dono e pagamento em pesos colombianos
Outro ponto da ação trata de 53 páginas sem titular identificável. Entre 19 de março e 19 de julho de 2026, essas páginas pagaram 4.625 anúncios em reais, dólares e pesos colombianos. Os anúncios somaram de 234 milhões a 276 milhões de exibições.
O campo de inscrição fiscal aparece vazio em todos os 4.625 anúncios. Das 53 páginas, 26 não informaram endereço à plataforma. Segundo a ação, os anúncios levavam o eleitor aos canais declarados da candidatura de Lula.
A petição pede a investigação da origem do dinheiro e da responsabilidade pela contratação.
Verba da Secom e perfil pessoal
A ação também cita anúncios pagos pela Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência (Secom) na página “Governo do Brasil”. Os textos noticiavam atos de governo e remetiam ao perfil pessoal @lulaoficial. A petição lista quatro anúncios, veiculados em junho e setembro de 2023. Um deles teve gasto de R$ 10 mil a R$ 15 mil e mais de 1 milhão de impressões.
O mesmo perfil consta no registro de candidatura de Lula como endereço oficial da campanha à reeleição.
“O Estado pagou; o perfil privado recebeu a audiência”, afirmam os advogados de Flávio.
A ação relata ainda um debate do PT em 5 de fevereiro de 2026, nos 46 anos do partido. Na mesma mesa, segundo a petição, estavam o secretário-executivo da Secom, Thiago César Santos, e o secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares. A diretriz do encontro, de acordo com a ação, foi “Em 2026 é um plebiscito do Lula”.
As ordens do “Exército do Lula”
A petição dedica um capítulo ao canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Segundo a ação, o canal saltou de 4.909.275 inscritos em 17 de outubro para 8.348.363 em 22 de outubro.
Entre 8 e 21 de outubro, a ação contabilizou 130 ordens de mobilização digital. Das 66 hashtags ordenadas no período, 53 chegaram ao top 10 dos assuntos mais comentados do X no Brasil. Para os advogados de Flávio, a estratégia fabricou tendências, buscas e engajamento de forma artificial.
Em 22 de outubro, às 14h14, o canal publicou: “Não adianta eles tentarem nos boicotar! O algoritmo não é páreo para o exército de um homem chamado LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA”.
A ação aponta ainda 3.977 publicações em coautoria entre perfis oficiais da candidatura e páginas de apoio, de 15 de agosto a 22 de outubro. Essas publicações somaram 454 milhões de reproduções, sem gasto com impulsionamento.
Vídeo sintético e material do PT
A petição também cita nove repositórios digitais numa conta do PT, com 175 peças classificadas por alvo. Segundo a ação, o material circulou até a véspera do segundo turno. Entre as peças, a petição aponta um vídeo com a imagem e a voz de Flávio gerado por meio sintético. A ação pede uma perícia no vídeo.
Os pedidos urgentes
A campanha do PL pede ao TSE uma decisão liminar, sem a oitiva prévia de Lula. Os principais pedidos são:
a suspensão imediata do impulsionamento de propaganda negativa contra Flávio e a retirada dos anúncios ativos;
a retirada do vídeo sintético em até 2 horas;
a proibição de ordens coordenadas pelo “Exército do Lula” até o fim da votação do segundo turno;
a preservação de mensagens, inclusive as apagadas, e de dados do canal pelo Facebook, dono do WhatsApp;
a identificação, pelo Google, da conta lulapelobrasil2026@pt.org.br em até 12 horas;
a apresentação pela Secom, em 24 horas, dos contratos e da lista de influenciadores pagos desde janeiro de 2025.
A ação é a décima da série apresentada pela campanha de Flávio ao TSE. Segundo a petição, as nove anteriores não examinaram o dinheiro do impulsionamento. Os advogados pedem a análise conjunta com as ações anteriores, em especial a que envolve Janones.
