
Os ministros de Lula (PT) Alexandre Padilha, da Saúde, Wellington Dias, do Desenvolvimento e Assistência Social, e Frederico Siqueira, das Comunicações, já estiveram na “mansão do lobby”, em Brasília. O imóvel era usado pela empresária Roberta Luchsinger e por Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A informação é da revista Veja.

Ainda segundo a reportagem, também passaram pelo local o ex-chefe de gabinete do presidente da República, Marco Aurélio Santana, o Marcola, o atual chefe adjunto do gabinete presidencial, Swedenberger Barbosa, o Berger, e os irmãos Kalil e Fernando Bittar.
De acordo com a Polícia Federal (PF), a mansão era usada como base de operações de Roberta para aproximar empresários interessados em fazer negócios com o governo de autoridades federais. Lulinha também ficava hospedado no imóvel quando precisava ir a Brasília para tratar de interesses do grupo.
O imóvel fica no Lago Sul, área nobre de Brasília. O acesso é controlado: o visitante precisa se identificar na portaria, e os funcionários acionam o morador, que decide quem pode ou não entrar. O local, porém, não tem câmeras de segurança, de acordo com a Veja.
Mensagens apreendidas pela PF e reveladas pela Veja mostram que o grupo, composto por Lulinha, Luchsinger e Fernando Bittar, atuava em diferentes frentes. Entre os negócios estavam uma tentativa de vender ao Ministério da Saúde medicamentos à base de canabidiol e articulações nas áreas de portos, aeroportos e em empresas públicas como Telebras, Correios e Dataprev. A expectativa era faturar mais de 1 bilhão de reais com a negociação dos medicamentos.
A PF encontrou indícios de uma “sociedade informal” entre Lulinha, Luchsinger e Bittar para atender a interesses privados por meio de relações pessoais privilegiadas. Segundo a polícia, a atuação deles pode ter ultrapassado limites éticos e legais porque “o modus operandi identificado não se restringia à defesa institucional de interesses ou à discussão de políticas públicas de caráter geral, mas a uma atuação voltada à facilitação da obtenção de contratos públicos, à promoção de alterações legislativas em benefício de interesses privados específicos e à realização de pagamentos a agentes públicos ocupantes de cargos de elevada hierarquia, com expectativa de obtenção de vantagens econômicas decorrentes dessas intervenções”.
Um dos parceiros de Roberta e Lulinha era Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como líder da quadrilha investigada pelo roubo dos aposentados e pensionistas do INSS, e que também já esteve na ‘mansão do lobby’. Um funcionário relatou à Veja: “Às vezes os dois (Lulinha e o Careca) chegavam juntos” ao imóvel.
A tentativa de Luchsinger de avançar sobre o mercado de medicamentos à base de canabidiol, negócio do Careca, envolveu integrantes do Ministério da Saúde. Em 2023, quando ainda era deputado federal, Padilha recebeu Roberta em seu gabinete. No ano seguinte, já como ministro das Relações Institucionais, passou a ocupar um posto estratégico no governo.
Na mesma frente de atuação, os lobistas buscavam se aproximar de Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. Segundo a reportagem, havia expectativa de que ele pudesse assumir a presidência da Anvisa, órgão responsável por regras relacionadas à fabricação e à comercialização de derivados de canabidiol.
Um diálogo incluído no inquérito da PF, e obtido pela Veja, mostra Roberta tentando organizar um encontro com Marcola. Ao convidá-lo para um almoço na mansão, perguntou: “Quer um churrasquinho?”. Depois de combinar o encontro, ela sugeriu a presença de Berger: “Leva o Berger”. Na sequência, reforçou a importância do pedido: “O Fábio pediu”.

A atuação do grupo não ficou restrita à área da Saúde. Wellington Dias recebeu Roberta várias vezes em seu gabinete entre 2023 e 2024. Depois de contratar os serviços da lobista, um empresário ligado a Lulinha conseguiu fechar contratos de 33 milhões de reais com o Ministério do Desenvolvimento.
Frederico Siqueira também aparece nas mensagens relacionadas aos negócios do grupo. Antes de assumir o Ministério das Comunicações, ele havia presidido a Telebras. Segundo a reportagem, as conversas indicam que Siqueira forneceu informações aos lobistas interessados em negócios na Dataprev, estatal responsável, entre outras funções, pelo processamento da folha de pagamento dos aposentados.
O imóvel foi alugado em meados de 2024. No 1º contrato, o locatário registrado era o dentista Rafael Nicolau Arbex, amigo de Fernando Bittar. Ele afirmou que assinou o documento em nome de Roberta porque ela não poderia ir a Brasília naquele momento: “Assinei o contrato no lugar de Roberta porque na época ela teve um imprevisto e não pôde ir a Brasília”.
A manutenção do imóvel chegou a custar 100 000 reais por mês. A suspeita é de que empresários interessados em negócios com o governo bancassem as despesas.
