
Se Fernando Taxxad foi o nome ideal de Lula 3 para transformar o brasileiro no maior pagador de impostos do mundo, André Lara Resende não poderia surgir em melhor momento como o próximo ministro da Fazenda de Lula 4. Já explico, mas primeiro esqueça que o economista foi um dos formuladores do Plano Real em 1990.

Lara fez o caminho inverso ao da maioria dos homens que amadurecem com a idade. Como uma espécie de versão brasileira de Benjamin Button, com pitadas de mal com atraso e psicopatia, trocou a ortodoxia responsável pelo messianismo heterodoxo revolucionário. Lara virou Guevara.
Sua tese central hoje é a de que um país emissor de moeda soberana não possui restrição orçamentária — ou seja, pode imprimir Real à vontade –, e que não deve se preocupar com o aumento do déficit, pois endividamento do Estado é enriquecimento do mercado, a essência do próprio desenvolvimento econômico.
No mundo de GueLara, gasto é vida!
O problema é que, com exceção do ex-economista, de Dilma Rousseff, Lula, Janja e Nat Finanças, ninguém mais no mercado — e na política — acredita realmente nisso. Como um digno representante da geração boomer, o economista deveria saber que toda viagem lisérgica termina com uma baita enxaqueca no dia seguinte.
Defender que o Tesouro Nacional possa emitir títulos indefinidamente porque “a dívida é em moeda doméstica” é uma simplificação teórica que omite a realidade dos fatos, pois quando o endividamento ultrapassa os limites da sustentabilidade, sem contrapartida de ganhos de produtividade real, o resultado é a erosão da moeda.
A bad trip é certa.
Falta de âncora fiscal leva à fuga de capitais e ao aumento do dólar, gerando pressão inflacionária e erosão do poder de compra. Na Venezuela, essa revolução prometida por GueLara levou a uma inflação de 2.688.670%, fazendo o salário mínimo despencar de 370 dólares para apenas 1. Hoje, 70% da população venezuelana não consome carne, ovo, peixe ou laticínios.
A irresponsabilidade fiscal, portanto, não prejudica os engravatados da Faria Lima, que sabem se proteger com ativos dolarizados e renda fixa. Ela pune justamente o trabalhador da periferia, que vê o preço do prato de comida disparar enquanto os formuladores de políticas populistas, como Lula e Lara, justificam a gastança em nome da “justiça social”.
É importante repetir o óbvio: o Brasil não é os EUA, o Real não é o Dólar, e tentar aplicar as premissas de moeda de reserva global a um país emergente com histórico de moratória, hiperinflação e volatilidade política é receita certa para o desastre. A ideia de que o Banco Central deve cortar os juros na marra é similar a pular de um prédio com guarda-chuva.
Fazer isso num momento em que Lula torra 400 bilhões de reais para se reeleger e ainda promete ampliar massivamente os atuais programas sociais, é também receita certa para o impeachment; desde que o TCU seja honesto na análise das contas do governo neste ano. Por isso, torço pela nomeação de GueLara!
Seja como for, eventual omissão de técnicos e ministros não impede o inevitável ‘boicote’ dos investidores, que não gostam de perder dinheiro, inclusive banqueiros e rentistas em geral, que vêm ganhando muito com Lula. Mas tudo tem limite. Quem empresta dinheiro, mesmo a taxas escorchantes, quer a certeza de que será pago.
Se gasto é vida, calote é morte.
