
Formada em Administração e com registro profissional desde 2010, Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, registrou ocorrência contra os jornalistas Alice Maciel e Paulo Motoryn após ser apresentada pelo ICL Notícias como uma “doméstica laranja” que presidiria “no papel” empresas do advogado WIlIer Tomaz. Ela também pediu medidas protetivas de urgência contra os dois.

Lídia também entrou com ação por danos morais contra o ICL e os dois jornalistas. Ela pede a retirada das informações que permitem a localização de sua casa e a correção da reportagem.
A matéria do ICL entrou no ar às 16h13. A Polícia Civil imprimiu os pedidos de medida protetiva às 19h25 e às 19h26 do mesmo dia.
O que ela diz à polícia
No depoimento, Lídia afirma que sofre perseguição há cerca de quatro meses, com ligações, mensagens e abordagens presenciais. Segundo o termo de declaração, a situação piorou nesta semana. Ela conta que foi abordada na porta de casa, que teve correspondências interceptadas e que o lixo da residência foi revirado. Lídia afirma ainda que foi filmada sem autorização. Segundo ela, as imagens apareceram em reportagens inverídicas, junto com dados sobre onde mora.
No depoimento, Lídia se define como “cidadã comum, sem qualquer atuação ou vínculo político”. Ela declarou que nunca enviou nem autorizou a divulgação de fotos dos seus documentos a jornalistas. Desde então, segundo o termo, tem crises de ansiedade e evita a rua e o telefone por medo.
Os pedidos, registrados sob os números 2795/2026 e 2796/2026, preveem a proibição de aproximação e de qualquer contato com ela, com familiares e com testemunhas. Lídia também manifestou interesse na apuração criminal do caso.
O que o ICL publicou
A reportagem afirma que Lídia figurou como dirigente de 14 empresas ligadas a Willer Tomaz desde setembro de 2020. Entre elas estão a WT Administração de Imóveis e Bens, que obteve na Justiça a posse de uma mansão em Angra dos Reis (RJ), e a Friponor, responsável por uma ilha anunciada por R$ 17 milhões. A lista inclui ainda a RioPag, contratada pela Loterj para o processamento de pagamentos de casas de apostas.
Willer Tomaz é amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. Em agosto, o advogado foi alvo da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes contra aposentados do INSS. Ele afirma que não é investigado pelos desvios.
O título chama Lídia de “Doméstica”, e a linha fina diz que ela tem “vida simples”. Os jornalistas encontraram Lídia no prédio onde ela mora. Na abordagem, segundo o ICL, ela disse que trabalhava ali como doméstica, negou que conhecesse Willer e negou também que fosse Lídia Mazelli. A reportagem confirmou a identidade dela pelo nome escrito em uma encomenda entregue no prédio. O ICL também comparou o rosto de Lídia com a foto de um documento de identidade obtido de terceiros.
Depois da publicação, Lídia admitiu que era a mulher abordada e disse que nunca foi empregada doméstica. Em nota, explicou a primeira resposta: “Assustada, disse o necessário para encerrar a conversa e entrar.”
O que os documentos mostram
O diploma, emitido pela Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP), registra colação de grau em março de 2002. A Universidade de São Paulo (USP) registrou o documento em outubro de 2010. Antes da publicação, a assessoria de Willer informou ao ICL que Lídia era administradora “graduada há mais de 20 anos”. O portal pediu comprovação, não recebeu resposta a tempo e publicou a matéria.
A carteira de trabalho de Lídia contradiz a reportagem. Os registros mostram o cargo de gerente administrativa em todos os vínculos desde 2010. Isso inclui o período de março de 2019 a setembro de 2020, quando ela trabalhou no escritório de Willer Tomaz. Em um trecho do texto, o ICL chama Lídia de “ex-empregada doméstica de Willer Tomaz”. A própria apuração do portal, no entanto, só aponta um vínculo formal com o escritório, sem indicação de cargo.
Lídia também rebate a tese de que era dirigente de fachada. Ela afirma que exerceu as funções de fato e que assinou atos de gestão. “Não fui dirigente ‘no papel'”, diz na nota. A reportagem do ICL mostra ainda que, em 2019, no inventário da mãe, Lídia declarou à Justiça que não tinha condições de pagar as custas do processo.
A exposição
O ICL publicou a foto do prédio onde Lídia mora e indicou a região em que ele fica. O texto também trouxe detalhes do inventário da mãe dela. “Essa exposição não informa nada ao leitor e coloca minha segurança em risco”, escreveu Lídia na nota.
A Lei Maria da Penha trata da violência contra a mulher no âmbito doméstico, familiar ou em relação íntima de afeto. Os pedidos contra os jornalistas dependem agora de decisão judicial.
