
A Polícia Federal (PF) e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes usaram um repasse de R$ 100 mil ao jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida como parte dos elementos para justificar uma operação de busca e apreensão contra uma fonte do profissional.

Autorizada por Moraes em 3 de agosto, a operação teve como alvos Raimundo Cutrim, ex-secretário de Assuntos Legislativos do Governo do Maranhão, e o advogado Diogo Diniz Lima. As buscas foram cumpridas pela PF ontem (11).
Segundo relatório encaminhado ao Supremo, Cutrim seria a principal fonte de Pablo em reportagens sobre o uso irregular de carros do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro Flávio Dino e familiares.
A PF afirma ter identificado a relação entre o ex-secretário e o jornalista após acessar a conta de WhatsApp de Pablo por meio de um notebook. Na análise das mensagens, os investigadores encontraram uma transferência de R$ 100 mil feita por Diogo Lima em favor do jornalista, mas direcionada à conta de Danilo Cutrim Bezerra.
De acordo com a corporação, o valor seria parte do pagamento por um imóvel rural pertencente a Danilo Cutrim e comprado por Luís Pablo.
“Tais mensagens, que podem ser vistas nas fls. 19/22 da IPJ N° 1884784/2026, poderiam, a principio, ser interpretadas como mera troca de informações entre o jornalista e sua fonte. Ocorre que, mais adiante as trocas de mensagens evoluem para um pagamento de R$ 100.000,00 para Luis Pablo, que envolveram o contato registrado como Danilo Veterinário, o qual se refere à pessoa de Danilo Cutrim Bezerra. Para ficar mais claro, Diogo Lima efetua uma transferência bancária a favor de Luis Pablo, no valor de R$ 100.000,00, utilizando para tanto a conta de Danilo Cutrim Bezerra como recebedor”, escreveu a corporação.
Luís Pablo afirmou à Gazeta do Povo que pegou um empréstimo de R$ 100 mil com um amigo e que o débito já teria sido quitado. Para a PF, porém, a forma como a operação financeira foi realizada levantou suspeitas sobre a relação entre o jornalista e os investigados.
O relatório afirma que o repasse foi feito “por pessoa que tinha por hábito orientar o teor de reportagens contrárias ao Ministro Flávio Dino, em favor do jornalista responsável por tais publicações, o qual usou a conta de terceiro para o recebimento do pagamento”.
Em outro trecho citado por Moraes, a PF afirma que os pagamentos colocariam “sob suspeita o aspecto meramente informativo e a legitimidade do uso de um veículo supostamente de caráter jornalístico”.
“Chama atenção o fato de uma pessoa que direciona o teor de matérias jornalísticas de cunho político, aparentemente sempre buscando demonstrar aspectos negativos de determinada autoridade ou de grupo político, faça tal pagamento exatamente em benefício do jornalista responsável por tais publicações, colocando sob suspeita o aspecto meramente informativo e a legitimidade do uso de um veículo supostamente de caráter jornalístico”, afirma o relatório.
Na decisão que autorizou as buscas, Moraes sustentou que Cutrim e Diogo Diniz Lima teriam atuado em conjunto com Luís Pablo contra Dino:
“Os elementos de prova indicam que os investigados RAIMUNDO SOARES CUTRIM e DIOGO DINIZ LIMA participaram da ação delituosa, de forma concertada com LUÍS PABLO CONCEIÇÃO ALMEIDA, com a finalidade de atentar contra a liberdade individual e pessoal de ministro do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, valendo-se do acesso a informações sensíveis, inclusive com vazamento desses dados, com evidências de monitoramento, vigilância e acompanhamento de veículo utilizado pelo ministro FLÁVIO DINO, indicando, ainda, a conduta de perseguição”.
