
O sotaque do médico e cientista Anthony Fauci, que chefiou o principal centro de pesquisa em doenças infecciosas do governo americano por 38 anos, tem marcada influência da imigração italiana nos Estados Unidos, condizente com seu sobrenome de mesma origem. É o mesmo sotaque dos filmes sobre mafiosos como O Poderoso Chefão.

Fauci agora alimenta a má fama às vezes injusta dos imigrantes italianos desde que o senador republicano Rand Paul publicou o “diário” do cientista com suas anotações pessoais entre 2019 e 2022. É um grande compilado de notas, emails e capturas de tela que Paul chamou de diário, provocativamente, às vésperas da audiência na qual Fauci foi intimado a depor nesta quarta-feira (29), no Senado.
O que há de novo no diário
Com mais de mil páginas, o diário revela que o cientista de 85 anos, à frente dos esforços dos governos Trump e Biden para conter a pandemia de Covid-19, teve um comportamento de duplicidade, dizendo uma coisa em particular e outra em público. Outro aspecto notável é o deslumbramento de Fauci com a fama.
Algumas das mentiras já eram conhecidas, incluindo a mais importante: boa parte dos colegas virologistas de Fauci que participaram de reuniões em janeiro e fevereiro de 2020 sobre a origem do vírus desconfiavam que o patógeno pudesse ter escapulido de um laboratório. No entanto, em tempo relâmpago e dificilmente justificado pelas evidências, “mudaram de ideia” e insistiram em público, inclusive em um artigo técnico publicado na revista Nature Medicine, que o vírus era de origem completamente natural.
Fauci foi especialmente firme nessa posição em público, chegando a acusar os defensores da hipótese laboratorial de defenderem uma “teoria da conspiração” (algo que ele não disse nas reuniões aos seus colegas que tenderam a favorecer a ideia), e mentiu ao lado de Trump em uma coletiva que não conhecia os autores do artigo, quando ele próprio articulou nos bastidores sua publicação.
A questão da origem do vírus permanece em aberto até hoje, com muitas agências de inteligência, dos EUA à Alemanha, considerando que a origem laboratorial é mais plausível que a zoonótica (a partir de animais silvestres, sem passagem por laboratório). Os agentes alemães dão 95% de certeza para a origem laboratorial.
O diário mostra, em registro de 26 de janeiro de 2020, que Fauci pensava que o mercado de frutos do mar de Wuhan não era a origem do paciente zero, mas apenas um local em que as infecções se amplificaram. Mas ele já favorecia a hipótese de que o vírus SARS-CoV-2 pulou de animais silvestres para humanos em algum outro lugar.
Fauci detalhou nos registros como ele influenciou os lockdowns em escolas, restaurantes e as recomendações de “fique em casa”. Em 15 de março de 2020, Fauci registrou que “convenceu” o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, a “fechar as escolas”. “Eu acrescentei que ele deveria fechar os bares e restaurantes de Nova York. Ele disse que se basearia na minha recomendação”. Em 3 de dezembro de 2020, o conselho ao prefeito foi o mesmo: “Eu o instei a fechar os bares e restaurantes”.
Depois, em entrevistas, o cientista negou que tivesse estimulado essa política. “Em primeiro lugar, eu não recomendei trancar nada”, disse Fauci em entrevista à Fox News, em 25 de julho de 2022.
Vacinas
O diário de Fauci mostra que, no debate sobre vacinas, a comunicação científica foi repetidamente moldada por conveniências políticas. Em 2022, ele pressionou o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) a evitar a afirmação categórica de que as vacinas já não impediam infecção e transmissão, alegando não apenas que ainda havia alguma proteção modesta e decrescente, mas também que isso poderia prejudicar a campanha de doses de reforço e os esforços do Departamento de Justiça para defender a obrigatoriedade das vacinas da Covid.
Em 2021, o cientista apoiou a ampliação universal das doses de reforço apesar das preocupações do comitê do CDC com miocardite em homens jovens, ao mesmo tempo em que recebia pressão de um interlocutor que ele próprio descreveu como próximo da farmacêutica Pfizer. Também participou da decisão de apresentar a vacina da Johnson & Johnson como “equivalente” às de mRNA, embora houvesse dúvidas internas sobre sua eficácia em idosos e diferenças evidentes entre os produtos. Nada disso prova que as vacinas fossem inúteis ou que Fauci tenha ocultado uma catástrofe sanitária, mas revela algo bastante danoso à sua imagem de árbitro científico neutro: autoritarismo sanitário, promoção de doses extras sem justificação suficiente, relações com a indústria e apresentação seletiva das evidências.
Deslumbramento com a fama
Fauci preocupou-se especialmente com registrar todo tipo de entrevista que ele desse, de pequenas participações na mídia canadense às entrevistas mais bombásticas na CNN. Ele gostava de listar quais celebridades ele viu em festas ou reuniões de Zoom.
Em 30 de abril de 2020, por exemplo, ele salvou uma caricatura de si próprio em um jornal de Tucson, Arizona. No desenho, Fauci é retratado com uma auréola de anjo, de pé sobre um pedestal da “ciência” e cercado de velas. “O Dr. Fauci é meu pastor”, escreveu o cartunista, David Fitzsimmons, imitando a Bíblia no texto que acompanha a caricatura de louvor. “Ele tranquiliza a minha alma: ele nos conduz no caminho da razão científica para o bem da nossa espécie”.
Sobre o desenho e a cobertura do dia, Fauci comentou que “o frenesi midiático continua sobre mim”. Ele também registrou uma menção no New York Times, uma “matéria maravilhosa sobre mim” na revista Forbes e uma chamada no Zoom “organizada por Kim Kardashian” com participação de uma lista de 34 celebridades que ele enumera, entre elas Katy Perry, Orlando Bloom, Chris Rock, Gwyneth Paltrow, Ashton Kutcher, Ariana Grande, Demi Lovato e Michael Jordan.
O deleite de Fauci com a fama é palpável. “Artigo grande capa sobre mim apareceu no Washington Post”, ele escreveu em 21 de maio de 2020. “Bastante lisonjeiro. A situação com minha fama nacional e internacional é explosiva e inimaginável. Não é hipérbole dizer que hoje eu sou a pessoa mais famosa e comentada do país e uma das mais reconhecíveis do mundo”. Sobre Trump, de quem Fauci falou mal depois: “O presidente parece estar apaixonado por mim, embora eu esteja tirando os holofotes dele”.
No momento da publicação deste artigo, está acontecendo a audiência no Senado americano com presença de Fauci. Em resposta às perguntas do senador Rand Paul, Fauci replicou repetidamente que se recusará a responder a conselho de seus advogados e fazendo uso de seus direitos constitucionais. Um dos advogados de Fauci insistiu em falar sem solicitação da comissão que preside a audiência. Por isso, Paul ordenou que ele fosse removido da sessão.
