
A vitória de Keiko Fujimori na eleição presidencial do Peru reforçou uma tendência observada em diferentes países das Américas: o avanço de candidatos de direita e centro-direita. Ao mesmo tempo, expôs um desafio comum aos novos governos da região. Mesmo após vencerem as eleições, presidentes que não conquistam maioria no Legislativo enfrentam dificuldades para implementar suas agendas.

Essa é a principal conclusão do estudo “Eleições nas Américas 2022-2026″, divulgado nesta terça-feira (8) pelo Ranking dos Políticos. O levantamento analisou os processos eleitorais de 24 países do continente e concluiu que o fator determinante para a governabilidade deixou de ser apenas o resultado das urnas e passou a ser a capacidade de construir maiorias parlamentares estáveis.
Segundo o estudo, o recente ciclo eleitoral remodelou o mapa político das Américas, mas a principal mudança ocorreu na relação entre Executivo e Legislativo. Em vez de uma simples alternância entre direita e esquerda, o continente passou a registrar cenários marcados por fragmentação partidária, coalizões e negociações permanentes para garantir governabilidade.
“A eleição presidencial continua sendo importante, mas ela deixou de ser suficiente. Cada vez mais, quem define a capacidade de um governo realizar reformas é a composição do Parlamento e a habilidade de construir coalizões estáveis”, afirmou Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos.
Peru simboliza o novo cenário político
O estudo foi divulgado poucos dias após a confirmação da vitória de Keiko Fujimori no Peru. Embora tenha vencido o segundo turno por margem apertada, a presidente eleita não contará com maioria própria no Congresso.
O levantamento estima que a coalizão formada durante a campanha poderá reunir cerca de 75 dos 130 deputados e 43 dos 60 senadores, número suficiente para formar maioria. Ainda assim, a fragmentação partidária exigirá negociações constantes para manter essa base unida ao longo do mandato.
Para os pesquisadores, o caso peruano resume um movimento observado em praticamente todo o continente: vencer a eleição presidencial já não garante condições automáticas para governar.
Direita amplia espaço na América Latina
O levantamento identifica um fortalecimento de candidaturas de direita e centro-direita em parte significativa da América Latina nos últimos anos.
Entre os países analisados, governos desse campo político venceram eleições recentes na Argentina, Paraguai, Peru, Chile, Bolívia, Colômbia, Equador, Costa Rica e El Salvador. Já governos de esquerda permanecem competitivos em países como Brasil, México, Uruguai e Guiana.
Apesar dessa mudança, o estudo ressalta que a orientação ideológica não explica, sozinha, o sucesso de uma administração.
“O centro da disputa política regional, e especialmente a brasileira em 2026, não será apenas sobre posicionamentos ideológicos, mas sobre a capacidade de construção e manutenção de maiorias parlamentares estáveis”, afirma o relatório.
Maioria parlamentar garante mais estabilidade
A pesquisa aponta que presidentes que iniciaram seus mandatos com maioria consolidada no Congresso encontraram menos obstáculos para implementar reformas.
Na Bolívia, Rodrigo Paz formou uma coalizão que alcançou maioria absoluta nas duas Casas legislativas, o que garantiu estabilidade política logo no início do governo.
Na Argentina, Javier Milei ampliou significativamente sua base parlamentar após as eleições legislativas de 2025. O crescimento da bancada governista fortaleceu a capacidade do Executivo de sustentar vetos presidenciais e negociar reformas estruturais.
Situação semelhante ocorre na República Dominicana, onde o presidente Luis Abinader governa com ampla maioria parlamentar, e no México, onde a base legislativa da presidente Claudia Sheinbaum permitiu o avanço de reformas estruturais, incluindo mudanças no Judiciário.
Fragmentação dificulta governabilidade
Em sentido oposto, o estudo cita países onde a vitória presidencial não eliminou os obstáculos políticos.
No Equador, Daniel Noboa ampliou sua bancada, mas enfrenta uma oposição com força suficiente para bloquear parte da agenda do Executivo, cenário agravado após a derrota do governo em um referendo constitucional.
Na Guatemala, Bernardo Arévalo também depende de negociações permanentes em um Congresso altamente fragmentado.
Segundo o levantamento, esses casos mostram que a capacidade de negociação passou a ser tão importante quanto o desempenho eleitoral.
Brasil entra no radar para 2026
O estudo dedica um capítulo ao Brasil e avalia que a experiência internacional oferece um indicativo para as eleições presidenciais de 2026.
De acordo com o Ranking dos Políticos, o país possui um dos sistemas partidários mais fragmentados entre as democracias do continente, o que torna praticamente impossível a governabilidade sem alianças amplas no Congresso Nacional.
“A estabilidade institucional do Brasil dependerá menos do marketing ideológico e quase inteiramente da engenharia de coalizão”, concluiu Juan Carlos Arruda.
Para os autores, o ciclo eleitoral das Américas demonstra que a eleição presidencial continua sendo decisiva para definir o comando do Executivo, mas que o sucesso de um governo depende, cada vez mais, da capacidade de transformar votos em maioria parlamentar. É essa sustentação política, afirma o estudo, que determina a viabilidade de reformas, a estabilidade institucional e a execução da agenda de governo.
