
Poderia ter sido só mais uma briga de bar na Asa Norte, com testosterona mal aplicada, cérebros cozinhados no álcool e muita besteira. Mas foi parar nos Epstein Files — os arquivos antes mantidos em sigilo pelas autoridades americanas sobre as atividades de Jeffrey Epstein, um ex-professor, consultor financeiro e dono de uma ilha onde facilitava o tráfico sexual de menores no Caribe.
Na sexta-feira (30), o Departamento de Justiça americano tornou públicas mais de três milhões de páginas relacionadas ao criminoso, que teria se suicidado na prisão em 2019. Dado o número de gente importante envolvida com seus esquemas, do ex-presidente Bill Clinton e o bilionário Bill Gates ao príncipe Andrew, da Inglaterra, muita gente duvida que tenha sido suicídio de fato.
Das milhões de páginas divulgadas, 31 são de um relatório de uma oficial do FBI, Kristen Parkhouse, sobre o que aconteceu em dois bares de Brasília na noite de 18 de novembro de 2022, uma sexta-feira. O documento é marcado com “NÃO DISSEMINAR” em seu topo.
Ela alega ter testemunhado uma agressão contra um amigo, um funcionário do Departamento de Estado (aparentemente Miguel Contreras, que ela manteve anônimo), no Jungle Bar, que fica na Asa Norte.
A briga envolveu dois outros estrangeiros. Um deles era Addison Basurto, um repórter do National File, site ligado a Alex Jones, influenciador condenado na Justiça americana a pagar US$ 1 bilhão em indenização por ter produzido notícias difamatórias contra as famílias de crianças mortas por um atirador na escola Sandy Hook.
Entrevistei Renato Tebet, na época dono dos dois bares onde os estrangeiros se conheceram e depois brigaram. Ele negou os principais detalhes tanto na versão de Parkhouse quanto na de Basurto.
Por exemplo, Parkhouse alegou que Renato é sobrinho de Simone Tebet, ex-presidenciável e atual ministra do Planejamento. Basurto alegou em um artigo que ele é primo da política. Renato diz com veemência que isso é falso. Ele apenas compartilha um sobrenome de origem libanesa com Simone.
Acompanhe os detalhes a seguir.
Uma noite que começou diplomática
O aliado de Basurto era Luke D. Thorburn, australiano banido de entrar nos Estados Unidos e que, em 2022, vivia em viagens entre o Brasil e o Paraguai. Segundo o relato de Parkhouse, ele teve vários empregos, incluindo “um projeto de água de coco no Norte do Brasil”.
Quando chegou ao bar Dobe General Store, na Asa Sul, Thorburn começou a conversar com a agente do FBI e contou que fez um “enorme dossiê com todo mundo que sabia sobre [Jeffrey] Epstein e não fez nada” e que, quando o caso viesse a público, ele conseguiria expor os nomes de quem não fez nada, ou seja, não impediu o tráfico e abuso sexual de menores. Eis a razão para o relato de Parkhouse estar nos Epstein Files.
O australiano também disse que “viu o narcotráfico no Paraguai e o papel da CIA em apoiar essas atividades relacionadas a drogas”, o que “o afetou bastante”.
Parkhouse diz em seu relatório que Renato tem “afiliações próximas” a funcionários da embaixada americana e que um funcionário do governo americano já o havia classificado como um “contato estrangeiro”.
Segundo o próprio Renato, em entrevista para esta coluna, o motivo de seus bares serem atrativos para os estrangeiros era simplesmente que ele e seu irmão falam bem o inglês. Desde então, ele vendeu os bares.
A oficial do FBI afirma que, no início do encontro, achou que Renato Tebet era funcionário da embaixada americana e por isso se apresentou a ele como “Legat/FBI”.
O termo “legat” é uma contração de legal attaché, um agente especial enviado a embaixadas ou consulados no exterior, servindo como um contato com a polícia, inteligência e segurança locais. Em outro ponto do relato, Parkhouse disse ter negado que fosse uma agente do FBI em conversa com outras pessoas. Nas mensagens incluídas no relatório, ela usa um e-mail @fbi.gov.
Quando Thorburn chegou, ele contou que trabalhou para a Goldman Sachs e perdeu seu visto para os Estados Unidos por fazer negócios sem autorização em nome de uma namorada. O australiano também teria dito que passou a ser considerado uma “ameaça à segurança nacional” dos EUA.
O repórter investigativo e a confusão
A agente do FBI parece reclamar da indiscrição de Renato Tebet: “Quando Basurto chegou, Tebet me apresentou e mencionou que eu trabalhava no FBI”; “tipicamente, não menciono onde eu trabalho, para simplificar as coisas”.
O repórter americano então começou uma entrevista “incrivelmente curta”, de 15 minutos, em que fez perguntas sobre “Bolsonaro, Lula, a influência da China, membros do governo brasileiro e dois assassinatos”. Parkhouse se disse pega de surpresa com o tema das perguntas, pois não se considerava qualificada para comentar. Ela registrou que “Basurto depois vai alegar em sua reportagem que Thorburn era seu guarda-costas e com origem no Texas” (aparentes mentiras).
“Thorburn depois voltou ao assunto Epstein”, continuou a agente. “Ele me mostrou uma foto de uma matriz enorme e complexa envolvendo o Partido Comunista Chinês, Epstein, congressistas etc. Ele mencionou que mandou para a deputada americana Marjorie Taylor Greene”, uma grande apoiadora de Trump que passou a criticar o governo, caiu em desgraça aos olhos do presidente americano e renunciou ao mandato.
Quando Parkhouse perguntou por que Thorburn escolheu Greene, ele disse que é por causa de seu alcance, embora ele pensasse que ela é “uma merda”. O australiano teria dito, também, que chantageou com sucesso um funcionário da deputada “usando suas tendências narcisistas” para obter algo que ele queria a respeito de Epstein.
O empresário australiano também teria dito que tinha medo de perder a vida caso retornasse ao Paraguai.
Também estavam presentes no Dobe dois jovens brasileiros que a oficial americana disse estarem ligados à política do país, mas que ela mantém anônimos.
A conversa foi então interrompida e o grupo partiu, às 23h, para o outro estabelecimento de Renato Tebet, o Jungle Bar, na Asa Norte. O australiano e o repórter partiram no carro de um funcionário do governo americano (anônimo no relato de Parkhouse, que ela diz que era seu amigo e que parecia conhecer Thorburn previamente).
Parkhouse relatou que não queria ir, mas, como morava ao lado, decidiu passar por lá à meia noite com seu cachorro, avisando que não poderia ficar. Foi então que ela testemunhou Basurto entrevistando um filho de um funcionário da embaixada, na época com 21 anos, que trabalhava como DJ nos bares de Tebet. Ela avisou ao jovem que Basurto estava “com a mídia”, o que o motivou a parar de falar, fazendo que Basurto desistisse e saísse da mesa.
Depois, tendo decidido ficar para conversar com outras mulheres, a agente diz que ouviu Basurto contando a outras pessoas no bar que ela trabalhava para o FBI.
“Eu também ouvi Basurto dizer que eles haviam confirmado relatos de que a CIA estava envolvida na eleição brasileira”, continuou a agente. O repórter também teria começado a filmar o que ela dizia, enquanto perguntava se ela trabalhava para a CIA, o que ela negou.
Parkhouse então passou a ajudar Thorburn, que dizia estar passando mal. Ela mencionou o vídeo, e Thorburn pediu a Basurto que deletasse. O repórter disse que deletaria, mas a agente não acreditou nele, relatando que seu semblante teria mudado.
O jornalista pediu que ela ajudasse a pegar seus pertences e os de Thorburn, que estavam no carro do funcionário do governo americano, que estava bêbado. Parkhouse narrou que se afastou por um momento e, quando olhou de volta para o bar, o funcionário da embaixada estava caído ao chão, sem se mexer. “Pensei que estava desmaiado ou morto”, ela escreveu.
Enquanto isso, Tebet estaria segurando Thorburn, que teria gritado ao funcionário caído ao chão “Por que a CIA está atrás de mim?”
Depois, ela teria notado que o funcionário da embaixada tinha “múltiplos hematomas na barriga”. Ela levou o jovem filho do funcionário para casa e disse que viu a Polícia Civil chegando ao bar. Na mesma madrugada, ela teria relatado os eventos a outro legat, Marco Gonzalez Jr. De manhã, Gonzalez teria ligado para um oficial regional de segurança do Departamento de Estado — o que indica que o incidente foi tratado com certa importância.
Tebet nega o desmaio e os hematomas. “Na época, houve uma discussão acalorada. A polícia foi chamada, mas não teve nada que tivesse acontecido que necessitasse de polícia. O que houve de grave não foi a confusão ou a briga, mas as ameaças, depois”. O ex-proprietário do bar diz que foi só um “empurra-empurra”, com insultos das partes em inglês. Mais importante, “ninguém caiu no chão. Não teve hematomas, nem soco. Só separei [a briga], devo ter feito uma chave de braço”, recorda-se.
Os envolvidos no empurra-empurra eram Thorburn e o funcionário do Departamento de Estado. “Nenhum dos dois sabiam o que estavam fazendo”, comenta Tebet sobre a forma como tentaram iniciar agressão um contra o outro.
Dias depois, em 1º de dezembro de 2022, Parkhouse relatou ter se encontrado com Tebet e o colega americano que ela alega ter visto desmaiado no bar. Tebet teria dito que tinha imagens de segurança do incidente e elas teriam sido enviadas ao oficial regional de segurança. O dono do bar teria dito, também, que estava sendo perseguido.
A agente alega que ela e Tebet receberam múltiplas mensagens com ameaças de Basurto e Thorburn, e incluiu algumas em seu relatório que veio à tona na sexta.
Tebet confirmou à coluna as ameaças, que teriam sido “inúmeras”. Basurto e Thorburn faziam ligações anônimas “de vários telefones”. Ele fez “uma queixa na embaixada americana”. Os contatos não solicitados continham “ameaças pesadas” de ambos. O mais agressivo era o australiano.
Parkhouse alega que Tebet estava andando armado por causa das ameaças, mas ele nega e diz que ela deve ter interpretado mal ou exagerado algo que ouviu.
As versões do National File e do dono do bar
Uma reportagem publicada pelo National File em 29 de novembro de 2022 dá outra versão dos eventos. Ela identifica o funcionário anônimo como Miguel Contreras e alega que foi ele que “atacou” Basurto e “seu guarda-costas” (que foi como a agente do FBI disse que Thorburn seria identificado).
A matéria aponta para tweets de Basurto, mas seu perfil está trancado. A descrição diz “Entre os especialistas, considerado amplamente um dos maiores jornalistas de todos os tempos. Aposentado”. O jornalista também não publica textos em seu Substack desde maio de 2025.
A assinatura de Addison Basurto no texto sumiu da versão atual disponível, mas pode ser observada em arquivo.
O jornalista também alegou em sua versão que Kristen Parkhouse “assistiu impassiva enquanto Contreras atacou Basurto múltiplas vezes, mesmo depois que foi pedido que ela interviesse”. O texto identifica Renato como “primo de Simone Tebet, que ficou em terceiro lugar na eleição presidencial do Brasil em 2022”. Renato nega o parentesco.
Segundo o relatório de Parkhouse, Thorburn teria tentado intimidar Parkhouse, Tebet e Contreras “pela ameaça de arruinar nossas reputações profissionais com informações falsas”. Tebet confirma as ameaças de destruição de reputação.
“Isso é especialmente grave, pois não fizemos literalmente nada de errado contra Thorburn e Basurto, na verdade ambos fomos muito profissionais com ambos os homens”, concluiu a agente. “Além disso, ofereci ajuda a Thorburn para ir a um hospital quando ele disse que estava passando mal, e disse que eu pegaria as mochilas deles no carro do funcionário”.
O que parece que realmente aconteceu, para este colunista: dois homens excêntricos convenceram a si mesmos que a CIA estava intervindo na eleição para favorecer Lula, mas não tinham provas suficientes disso. Sabendo que pessoas da embaixada americana frequentavam o bar de Tebet na Asa Sul, se enturmaram no local.
“O cara queria cavar alguma matéria”, diz Tebet sobre Basurto. “Dava para ver a má fé dos dois, tentando cavar alguma coisa que aconteceu”. Thorburn, segundo o brasileiro, era o mais alterado. “Falando algumas coisas que fugiam muito do normal, dizendo que alguém havia ameaçado ele”.
Quando Tebet revelou que Parkhouse trabalhava no FBI, os dois se empolgaram que conseguiriam extrair alguma informação dela. Thorburn parece ter tentado a tática de compartilhar com ela muitos detalhes de sua vida, na esperança de que ela fizesse o mesmo, o que não aconteceu. A noite terminou, então, com bastante álcool e nervos, fazendo com que as partes trocassem provocações verbais e empurrões, com Tebet intervindo para impedir a escalada do conflito e preservar seu bar e clientes.
E isso foi parar nos Epstein Files porque Thorburn alegou ter produzido um dossiê que poderia expor quem poderia ter parado o abuso de crianças. Se é verdade, só ele ou o gabinete de Marjorie Taylor Greene podem responder. Contudo, Thorburn, assim como seu colega, não parece ser exatamente uma boa fonte de informação.
Tebet pagou um preço alto por intervir para manter a ordem em seu bar. Ele relata que a dupla de gringos o assediou com contatos anônimos por aplicativos e ligações intensamente por seis meses, e de forma mais intermitente por até um ano depois. As mensagens diziam coisas como “sei onde você está”, diz o empresário.
Jornalista com comportamento pouco profissional
Encontrei no canal de Basurto no YouTube as imagens que ele produziu no dia. No momento, o vídeo tem somente 111 visualizações.
O vídeo é uma colagem de várias cenas, mostrando Basurto em um veículo que ele alega ser de Contreras. Ele mostra o cartão de visitas de Contreras, sem remover nenhum dos contatos do funcionário do governo americano.
“O nome dele é Miguel. Ele trabalha para o Departamento de Estado. Aí está ele. Ele perdeu o controle”, diz quem filma, presumivelmente o jornalista. O homem filmado, com uma camisa aberta, lança o braço contra a câmera e diz em inglês “pare com isso”.
Basurto alega que Renato Tebet teria dito a ele que “faria muito dinheiro” se Lula ganhasse a eleição, mas não há essa cena nas imagens, somente na narrativa montada com texto sobre imagens estáticas.
O jornalista mostra a si mesmo (se é sua voz, a mesma de antes) se engajando com outro homem barbudo no bar e o desafiando a iniciar agressão. “Vai, faça [lance um soco], eu te desafio”. Segundo Tebet, Basurto alegou que o barbudo “é da CIA” e que o “afundaria no Mar Vermelho”. “O bicho é maluco”, pontifica o ex-dono do bar.
Também via texto, o jornalista alega que Contreras o atacou “múltiplas vezes” e que “seu guarda-costas o colocou no chão”. “Só então ele destrancou seu carro para devolver a mochila”. Basurto alega que Contreras então o ameaçou de morte se ele aparecesse mais uma vez.
O comportamento pouco profissional de Basurto torna praticamente impossível, contudo, destrinchar o joio do trigo sobre haver ou não algo digno de notícia na briga de bar. Talvez a imprensa de Brasília, se soube do acontecido, tenha ignorado o caso por um bom motivo. Agora, a versão claramente defeituosa e parcial da agente do FBI vencerá em alcance, para todos os interessados no caso Jeffrey Epstein.
