
Uma reunião realizada no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024 reuniu o presidente Lula (PT), o então diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
O encontro não foi incluído na agenda oficial da Presidência e não foi comunicado a Roberto Campos Neto, que ainda exercia o cargo de presidente do Banco Central naquele período. As informações são do portal Poder 360.
A reunião ocorreu quando já circulavam no mercado financeiro alertas sobre a situação do Banco Master. A instituição oferecia títulos com remuneração de até 140% do CDI, índice considerado fora do padrão bancário. Mesmo diante desse contexto, a informação sobre o encontro não foi compartilhada com o comando da autoridade monetária.
Além de Lula, Galípolo e Vorcaro, participaram da reunião o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como representante do Banco Master; o ministro da Casa Civil, Rui Costa; o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira; e Augusto Lima, então diretor-presidente da instituição financeira.
Até hoje, não há registro público detalhado sobre o conteúdo da conversa realizada no Planalto. Também não foram esclarecidos os motivos das outras três visitas de Daniel Vorcaro à sede do governo federal, registradas entre 2023 e 2024. Ao todo, o fundador do Banco Master esteve ao menos quatro vezes no Palácio do Planalto nesse período.
Relatos indicam que Vorcaro utilizou o encontro para apresentar a Lula sua estratégia de manter o banco em operação, com o argumento de reduzir a concentração do setor bancário. Durante a conversa, mencionou interesse do BTG Pactual, controlado por André Esteves, na aquisição do Banco Master, afirmando que a proposta envolvia pagamento simbólico de R$ 1. Disse ainda que se sentia pressionado e perguntou diretamente ao presidente se deveria vender a instituição ou seguir com o negócio.
Segundo esses relatos, Lula criticou Roberto Campos Neto, cujo mandato à frente do Banco Central se encerraria dias depois, afirmou que a condução da autoridade monetária mudaria com a posse de Galípolo e fez comentários negativos sobre André Esteves. O presidente também orientou Vorcaro a não vender o Banco Master ao BTG.
O encontro foi precedido por uma audiência entre Guido Mantega e o chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. Essa reunião só foi registrada oficialmente no sistema do Planalto em 27 de dezembro de 2024, de forma incompleta. O registro menciona apenas Mantega como participante, classificado como representante de interesse próprio, sem referência à presença de Vorcaro.
Após essa audiência, Mantega e Vorcaro seguiram para a reunião com Lula. O presidente da República só passou a tratar publicamente do caso do Banco Master em janeiro de 2026, após a liquidação da instituição pelo Banco Central. Em evento realizado em Maceió (AL), em 23 de janeiro, afirmou que “falta vergonha na cara” de quem defende Daniel Vorcaro e declarou que o governo não interfere nas decisões do BC.
O Banco Master foi liquidado em novembro de 2025, no que se tornou o maior colapso bancário da história do país. No mesmo mês, Vorcaro foi preso, permaneceu detido por 11 dias e foi solto com uso de tornozeleira eletrônica e retenção do passaporte. A investigação é conduzida pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que já divulgou depoimentos de investigados.
Em abril de 2025, Lula participou da inauguração da fábrica de insulina da Biomm, em Nova Lima (MG). O Banco Master é o principal acionista da empresa, com 25,86% de participação, por meio do Fundo Cartago.
Integrantes do governo minimizaram o encontro. Em 28 de janeiro de 2026, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), afirmou que o presidente “recebe muita gente, já recebeu outros donos de banco, já recebeu outras pessoas do mercado financeiro”.
No dia seguinte, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), declarou que Lula teria informado a Daniel Vorcaro que eventuais decisões sobre o Banco Master seriam técnicas e de competência exclusiva do Banco Central.
bc
